Entre a Montanha e o Mar: uma breve avaliação de Cape Town 2010

Fabrício Cunha

Aconteceu entre os dias 17 e 25 de outubro passados o Terceiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial, como parte integrante de uma linhagem de congressos convocados pelo segmento “Evangelical” da Igreja Evangélica internacional, tendo como ponto de partida o Congresso de Berlim, em 1966, passando pelo célebre Congresso de Lausanne, em 1974 e pelo sofrível Congresso de Manila em 1989.

Fui parte da delegação brasileira, composta por 90 delegados e 10 pessoas trabalhando na equipe de voluntários.

 A linda Cidade do Cabo não poderia ser um lugar melhor e mais sugestivo. Fica numa planície, entre uma montanha, a Table Mountain e o mar aberto.

Assim classifico o congresso: oscilamos entre: 1. o retrocesso para uma teologia fundamentalista norte-americana, que ainda tem na proclamação verbal do evangelho, na obtenção de convertidos a uma religião e na imposição de um método de evangelização, a estratégia primaz de sua missão, desconsiderando a integralidade da missão, a necessidade de se construir projetos que respeitem o contexto e o chamado de Jesus a fazermos discípulos e não convertidos, como enfatizou René Padilla em sua breve fala de 6 minutos; 2. e a riqueza, a criatividade e o progressismo de irmãos do mundo pobre, que nos impactaram com seus testemunhos de atuação em realidades tiranas  para com as pessoas e hostis ao Evangelho.

PONTOS NEGATIVOS

  1. Mau aproveitamento das plenárias – para que a manhã não fosse muito cansativa, dividiram as participações em períodos menores do que estamos acostumados. De fato não nos cansou, mas as abordagens foram muito superficiais, o que não se deu só pelo tempo, mas principalmente;
  2. Reenfatização da linha que divide a evangelização da ação social – declarações feitas dentro de seminários e exposições, tais como essa de John Piper, onde disse que “precisamos salvar as pessoas de sua condição de pobreza mas, principalmente, da condenação eterna”, foram constantes e evidenciaram a triste realidade de que muitos ainda acham que salvar a “alma” é mais importante do que salvar a “vida” das pessoas.

PONTOS POSITIVOS

  1. Pequenos Grupos - Todo o período da manhã, onde ouvíamos as exposições bíblicas e os debates, aconteceu no formato de “pequenos grupos”. Sentávamos em nossas mesas de seis pessoas, ouvíamos o que era dito e tínhamos longos períodos para discutirmos o tema abordado e o enriquecermos com nossas próprias experiências, o que potencializou o aprofundamento do tema e a oportunidade de conhecermos de fato pessoas de lugares e realidades muito diferentes. Meu “PG” tinha 5 pessoas: eu, fazendo a moderação, Francisco, presidente da Igreja Evangélica Livre da Espanha, Ylídio, pastor de 71 anos, fundador de uma denominação na Venezuela que tem mais de 30 mil membros, Dionísio, que trabalha preparando jovens pregadores na Colômbia, em parceria com a Fundação John Stott e Corina, uma alta executiva da Visão Mundial, que é responsável por toda área de “advocacy” da instituição em todo mundo e trabalha em parceria com a ONU. Foi um grande privilégio dividir histórias, orações e estudos com esses irmãos tão diferentes e com ministérios tão profícuos e longevos.
  2. Testemunhos dos irmãos de países e realidades pobres  e da igreja perseguida – Fui profundamente impactado pelas histórias que ouvi desses irmãos. Têm dado suas vidas pela causa do Evangelho, mesmo quando o “dar a vida” é literal. Renovei meu compromisso com Cristo ouvindo o testemunho da jovem Gyeong Joo Son[1]. O sangue desses irmãos tem regado a terra e gerado vida. Não podemos viver nosso cotidiano, sem considerar que outros têm dado de si pelo Reino. Nossa espiritualidade “light” precisa ser revista. Fiquei feliz em ver que a “igreja do templo”[2] pode até parecer doente e inoperante, mas a “igreja do deserto”[3], marginal e subversiva, continua vida e ativa.

 

Volto com um saldo positivo do encontro, pensado em como desdobrar tudo o que vi e ouvi. Um olhar global só faz sentido quando desemboca numa atuação local.

Seria impossível falar sobre a “Igreja Brasileira”, tão diversa, plural e pulverizada, mas penso que o segmento no qual estamos inseridos, corresponde à analogia que faço no título, “entre a montanha e o mar”. Se nos lançamos irresponsavelmente ao mar, corremos o risco de não aportarmos em lugar nenhum, se nos agarramos à montanha, perderemos novas paisagens, e sucumbiremos ao medo do desconhecido. Estar entre um e outro é buscar solidez teológica, sem apegar-se aos dogmas. É lançar-se ao desafiador mar da missão, sem o ufanismo de querer mudar todas as coisas.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Sigamos em nosso desafio de subsidiarmos a prática de nossa missão com a boa reflexão, pois reflexão sem missão é academicismo e missão, sem reflexão, ativismo.



[1] Leia em http://fabriciocunha.com.br/historiasnossashistorias-gyeong-joo-son-so-tem-17-anos-mas-o-mundo-nao-e-digno-dela/

[2] Lc 3. 2a

[3] Lc 3. 2b

Fabrício Cunha – pastor da juventude da Igreja Batista da Água Branca. Líder de MPC – Mocidade para Cristo e do Movimento Jovem de Missão Integral. É um dos coordenadores do Núcleo da FTL-Brasil, na cidade de São Paulo.

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