DA (DES)IMPORTÂNCIA LATINOAMERICANA NA GEOPOLÍTICA RELIGIOSA

Robinson Cavalcanti

Durante a realização do recente Congresso Lausanne III, na Cidade do Cabo, África do Sul, um dos participantes brasileiros se deu ao trabalho de mensurar a participação dos oradores no plenário, seminários e grupos de interesse por sua representação continental/regional. O que constatou (com números inquestionáveis), foi a imensa distância entre o protagonismo de norte-americanos, europeus, asiáticos e africanos com os latinoamericanos. Esses últimos com uma reduzidíssima presença nas plataformas. Outro participante chegou a justificar essa debilidade apelando para uma pretensa perda de importância temática do continente após o declínio da Teologia da Libertação, além do crescimento do Cristianismo, ou a sua perseguição em outras áreas do mundo, quando o que se via era uma evidente desvalorização dos quadros pensantes do continente moreno.

 

Frequento congressos internacionais religiosos (denominacionais e interdenominacionais) há 45 anos, e o quadro tem sido sempre esse. Já fui a congresso em que todos os oradores eram do espaço euro-ocidental, e aos pretos, pardos e amarelos cabia uma leitura bíblica, uma oração, um aviso, e, obviamente, um lugar na fotografia, para dar uma face “internacional” ao evento, quando, de fato, fomos meros figurantes, tão importantes quanto índios em filme de cowboy...

 

Há umas coisas lá atrás: depois da sangrenta guerra religiosa dos 30 anos na Europa, uns pularam fora do barco via Iluminismo, outro ficaram dentro, mas “congelando” os conflitos teológicos com a Igreja de Roma, e cessando qualquer esforço visando a conversão dos seus adeptos. Um sacramentalismo formal passou a entender a “salvação” de todos os batizados. Um dos resultados foi a deliberação da hoje festejada centenária Conferência Missionária, de Edimburgo, Escócia, 1910, em excluir a América Latina como campo missionário, visto entender ser esse “um continente cristão”, contrastando com a expressão do líder presbiteriano Jerônimo Gueiros, ser o Brasil “um país pagão de povo batizado”. Minimizou-se o caráter nominal, sincrético, ou apenas folclórico de amplos segmentos da Igreja de Roma em nosso continente.

 

Essa “síndrome de Edimburgo” nunca foi ao todo superada na maioria das mentalidades dirigentes euro-ocidentais, malgrado a reação representada pelo Congresso do Panamá, 1916, reafirmando que a América Latina deveria ser considerada um campo missionário, e que os protestantes aqui deveriam agir em unidade. A verdade é que o “espírito do Panamá” prevaleceu aqui, com a crescente expansão do Protestantismo, que assume, também, um protagonismo na missão mundial da Igreja. A Reforma, para os de lá, é um capítulo da História da Igreja, considerado mais ou menos importante; enquanto aqui ela é algo atual, vivo, presente, relevante. Enquanto os templos protestantes do norte estão se esvaziando, os daqui estão se enchendo.

 

Quando da realização do Congresso de Pattaya, Tailândia, 1980, patrocinado pelo Movimento de Lausanne, um grupo de brasileiros, liderado pelos nordestinos, teve que fazer circular um documento reafirmando o nosso direito de evangelizar os católicos romanos na América Latina, não somente os nominais, os sincréticos e os folclóricos, mas, inclusive os praticantes que não tivessem passado pela experiência do novo nascimento, ou estivessem a caminho da superação de dogmas conflitantes com as Sagradas Escrituras (como tinha sido o meu próprio caso um dia). Aquela ocasião foi o único momento em que o Rev. John Stott e eu tivemos uma acalorada divergência pública.

 

Um outro fator, que não pode ser minimizado, tem sido a tendência do evangelicalismo latinoamericano para uma visão mais integral do Evangelho, diante das desigualdades sociais, inclusive com a participação em partidos de esquerda, algo incompreensível para os setores mais conservadores de uma parte do globo mais opulento. Foi inegável que Samuel Escobar e René Padilla, com suas conferências, mudaram os rumos do Congresso Lausanne I, 1974, Suíça, na direção à Missão Integral.

 

Do orçamento da Comunhão Anglicana ao Vaticano, a grana vem, majoritariamente, dos gringos, que, no velho pensar secular“quem paga, manda”, todos podem entrar no trem, mas só eles o dirigem como maquinistas. É claro que o divisionismo, a desorganização, ou deslumbramento/subserviência dos latinoamericanos apenas agrava o quadro, e não expressamos a nossa voz e o nosso pensamento nos fóruns religiosos internacionais como poderíamos (deveríamos) fazer. Coisas de geopolítica....

 

Há um outro fato a ser salientado. No conjunto da América Latina os brasileiros ficam à margem. Os relacionamentos são positivos, mas os hispânicos têm outra história e outra agenda, e jamais farão esforço maior para falar o português ou conhecer a nossa história. Esse quadro não tem mudado nos 40 anos que participo da FTL, e, assim, devemos continuar participando, mantendo um clima fraterno, mas com expectativas mais modestas.

 

Devo, a essa altura, prestar uma homenagem a um velho companheiro de fundação da FTL, falecido o ano passado, o ex-missionário batista no Brasil Richard Sturz, que, mesmo antes da “Revolução dos Cravos” e da descolonização, defendia a “teoria dos dois pés”: que, como evangélicos brasileiros, deveríamos, em termos de integração, manter um pé na América Latina e outro no espaço da hoje Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com quem temos evidentes afinidades, temos exercido atividades missionárias, e que estão passando por um notável crescimento em sua população evangélica. Uma Fraternidade Teológica Lusófona seria a essa altura mais do que importante, e, particularmente, muito bem vinda por nós nordestinos, que estamos a quatro horas de voo a jato do próximo hispanoamericano, que, debruçados sobre o Atlântico, temos um perfil muito mais luso-afro-ameríndio.

 

Devemos encarar a realidade para podermos alterá-la.

 

A História muda, nós mudamos com ela, e nós a mudamos, sob a Providência.

 

Por uma nova geopolítica religiosa protestante, e por um mais afirmativo protagonismo latinoamericano e luso-afro-ameríndio brasileiro!

 

Olinda (PE), 31 de outubro de 2010,

Anno Domini.

Dia da Reforma

Dia do Segundo Turno das Eleições Presidenciais

 

+Dom Robinson Cavalcanti, ose

Bispo Diocesano

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