Espiritualidade: expressão de misticismo ou de exercícios do lado fantasmagórico dos nossos seres

 

Bispo Robinson Cavalcanti (¬)

 

  1. Podemos entender a Espiritualidade como a visão de si, a visão de mundo e a visão da inserção do ser no mundo, o que implica em conceitos, valores, sentimentos, atitudes. Tudo o que transcende o estritamente “material”: as necessidades fisiológicas, os reflexos condicionados, os instintos (como os animais irracionais). Com essa abordagem podemos afirmar que todas as pessoas possuem uma Espiritualidade, com diferentes graus de consciência e de sistematização.

 

  1. Podem os materialistas, os ateus ou os agnósticos ser portadores de uma Espiritualidade? A resposta é afirmativa. Em seu discurso falam das “necessidades do espírito” se referindo ao cultural: as artes, a literatura, o lazer, os relacionamentos. Tudo que os edificam como seres humanos. Na Revolução Francesa (Laicismo Radical), nas Revoluções Soviética, Chinesa e outras (Estado Ateu) toda uma “mística” (rituais, livros sagrados, culto à personalidade, “dias santos”) preencheram a dimensão “religiosa” da Espiritualidade.

 

  1. Podemos, por um lado, estabelecer uma relação entre Espiritualidade e Ideologia de Estado: o Estado Teocrático (Idade Média + Islã atual), Estado Ateu (URSS), Estado Laico (EUA) e Estado Secularista (Espaço Euro-Ocidental atual). Porque, nesses diversos contextos, há atitudes diferentes em relação tanto para com a Religião (estabelecida) quanto para com a Religiosidade (atitude), dentro do que o estado considera legal e legítimo, com implicação na Espiritualidade de seus cidadãos.

 

  1. A derrocada do modelo soviético o faz permanecer de forma residual (China, Coréia), periférico. No Ocidente há uma “revanche de Deus”, e um retorno da valorização da Espiritualidade, e, até certo ponto, da Religiosidade, mas não necessariamente da Religião. Por um lado há uma nova atitude difusa e sincrética de Espiritualidade, onde entram aspectos esotéricos e orientais. Isso não implica no retorno à Religião organizada, em suas instituições históricas, por ser marcada pelo extremado individualismo, subjetivismo e relativismo da Cultura atual.

 

  1. Os cristãos enfrentam um conflito de fontes de Espiritualidade: Fontes externas:

a) O recrudescimento das Religiões Antigas: Bramanismo, Budismo, Islã, e a influência de alguns dos seus elementos na Cultura Ocidental;

b) As várias expressões do esotérico, do oculto e do sincrético;

c) O Secularismo, como ideologia secular agressiva, especialmente presente no aparelho de Estado, na academia e na mídia. O Secularismo é impropriamente chamado de Laicismo.

 

O Laicismo é apenas a separação constitucional entre a instituição estatal e as instituições religiosas, reconhecendo-se o valor histórico e cultural destas, e o seu lugar como variável ideológica dos cidadãos que as professam, em seus direitos. O Secularismo torna os materialistas, ateus e agnósticos como cidadãos de primeira classe, e os religiosos como cidadãos de segunda classe, pois os posicionamentos destes como cidadão não podem se basear em aspectos religiosos.

 

A Religião é confinada para três interiores: o templo, o lar e o recôndito do ser. Há um rechaço do monoteísmo (judaísmo, cristianismo, islã) e da ideia de Revelação (em decorrência, de valores absolutos), especialmente o Cristianismo. Esse é um conflito atual, agudo e crescente. No máximo se tolera uma Espiritualidade Deista.

 

  1. Os cristãos enfrentam, também, um conflito de fontes de espiritualidade “interna corporis”:

a) O caráter apenas nominal das massas;

b) Sua abertura à incorporação e crenças e práticas sincréticas;

c) Uma atitude de autonegação de identidade histórica: Liberalismo Pós-Moderno, ou Revisionismo;

d) O misticismo alienante, tipo “batalha espiritual” e um modo especial de sincretismo, entre a religiosidade e o secular (capitalismo), tipo “teologia da prosperidade”;

e) O dualismo: espiritualidade cristã “para dentro” vs. espiritualidade secular “para fora”.

 

  1. Vemo-nos às voltas com outra questão: o dualismo de origem bramânica, que nos chegou ao Cristianismo, via pensamento helênico (platonismo, neo-platonismo) de caráter dualista: o espírito como sendo a banda “boa” dos nossos seres vs. a matéria como sendo a nossa banda “má”. A Espiritualidade seria associada ao desprezo pelo corpo (ascetismo, repressão sexual) e a exercícios que alimentam a alma (separatismo, sectarismo, anti-intelectualismo, o anti-lúdico, o anti-artístico, o anti-erótico + jejuns, orações, mortificações, ultramundanismo (pensar na “outra vida” e não nessa, no céu, no escatón);

 

  1. Se há uma Relação – no caso dos cristãos – entre Religião, Religiosidade e Espiritualidade, seria a espiritualidade cristã necessariamente dicotômica e ultramundana (luta conta “demônios territoriais”, p.ex.). Poderíamos fazer uma equivalência entre Espiritualidade e Misticismo?

 

  1. Não conduziria o dualismo-separatista-místico ao pecado do orgulho espiritual, ao se sentir mais “espiritual” que os outros pobres mortais “carnais”? Essa espiritualidade místico-alienante-superior não se relaciona, necessariamente, com legalismo (regras) e moralismo (hipervalorização dos pecados sexuais reais ou culturalmente construídos)?

 

  1. É necessário refletirmos sobre a Espiritualidade Cristã e suas manifestações (espiritualidades) através da História e a sua importância hoje para a maturidade espiritual dos cristãos e da Igreja como conjunto.


¬ Bispo Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife; cientista político, advogado, palestrante nacional e internacional. Esta palestra foi proferida no dia 06 de maio de 2009, no 36º. Encontro da SEPAL para Pastores e Líderes, em Águas de Lindóia-SP.

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