O Congresso de Ação Cristã, Panamá l.9l6

Critérios para entender as práxis dos movimentos missionários na América Latina, numa perspectiva da cultura e da sociedade.

No intuito de compreender o processo de construção e os desdobramentos do Congresso do Panamá, 1916, precisamos analisar de forma panorâmica o desenrolar da história das missões modernas e sua influência na construção da discussão missiológica na América Latina, que tem como ponto de partida tal Congresso, foco desse texto. Além disso, a reflexão sobre o processo deflagrado por esse célebre acontecimento na direção de uma identidade missiológica latino-americana, propriamente dita, é fundamental para a compreensão dos caminhos e descaminhos tomados pela igreja evangélica latino americana, que atribui sua gênese missiológica muito mais a encontros alheios à sua própria realidade do que aos que aqui aconteceram.
 
I – ANTECEDENTES HISTÓRICOS

1. A mudança de paradigma à partir do Iluminismo
Faz-se necessário retroceder ao período iluminista por conta da significativa mudança de paradigma na estrutura missionária, que, diretamente, lança as bases para o que chamamos de “missões modernas”. Portanto, alguns dados são fundamentais para a compreensão da mudança de eixo no modus operandi  missionário da época.
a.    O rompimento com a hegemonia clerical
À partir do novo eixo central da sociedade da época, que passa de teocêntrica para antropocêntrica, a igreja vai, gradativamente, perdendo seu lugar central na sociedade, que vai estabelecendo seus caminhos e descaminhos, cada vez mais independente da ingerência clerical. Os padres, bispos e até mesmo o papa, perdem seu lugar central na influência da vida cotidiana do povo, em todas as esferas, como o era até então, gerando a emancipação de outros protagonistas, os leigos protestantes, os comerciantes, os lideres sociais, e mesmo os governantes postos. Tais categorias vêm-se livres para novas alternativas de atuação , em todas as áreas da vida pública e privada, isto é, o home  se vê livre para atuar como “capitão” de sua própria história.
b.    O rompimento com a esfera mística
Mesmo numa sociedade ainda muito permeada pelo religioso, pelo abstrato, pelo sagrado, o concreto, à partir da ciência e da filosofia, vai tomando o lugar central do pensamento corrente. O místico, que servia como instrumento de manipulação, vai-se diluindo face às novas realidades de pensamento. O homem, sem a tensão da opressão pelo sagrado, vê-se livre para pensar suas dinâmicas de vida de forma independente, não mais  tutoreado pelo transcendente que, no caso, era representado pela igreja posta.
c.    O rompimento com a “escuridão intelectual” – racionalismo
Com a nova estrutura de pensamento, onde o conhecimento passa a se basear na experiência e os tratados são fruto do livre pensamento, ao homem é devolvida a possibilidade do pensar, do descobrir, do aferir, por si próprio. Nada é verdade por imposição ou convenção, tudo precisa ser provado impiricamente e pessoalmente. As ciências se emancipam e a teologia, considerada até então a única ciência ou, na melhor das hipóteses, a mãe das ciências, é colocada sob júdici, por conta de seu subjetivismo.
d.    A necessidade dos descobrimentos
Dois são os motivos principais para esse momento, a perda da hegemonia católica, que gera um grande déficit financeiro à Santa Sé que, por sua vez, subsidia tal empreitada com o intuito de conseguir mais recursos para seu subsídio; e o grande crescimento do comércio europeu, criando um novo estrato social, o dos burgueses que, por sua vez, precisam de matéria-prima em maior quantidade a um preço menor, para aumentar sua escala de lucro e vêm no descobrimento de novas terras, uma grande oportunidade de conseguir o que pretendiam.
Portanto nua sociedade que é devolvida ao protagonismo laico, que se vê livre da opressão do místico, com a possibilidade de pensar livremente, de se lançar a novas possibilidades e descobrir novos horizontes, o paradigma de missão que foi hegemônico na idade média, o da expansão imposta e controlada pela Igreja Católica Romana, com lampejos  de ascendência social natural por conta do Protestantismo, vê-se alterado.
Com a separação entre igreja e estado na Inglaterra, seguida imediatamente pela França e depois por outros países da Europa, as novas sociedades religiosas vêem-se com a necessidade de reconfigurarem sua atuação na sociedade. Os clérigos de carreira perdem sua ascendência natural sobre o povo e sobressaem pensadores livres que, por conta de um discurso mais acessível, encarnado e palpável, ganham influência e força pública, gerando alguns movimentos.
Por força dessas mudanças, dois pontos principais se tornam o centro do paradigma de missão:

PARADIGMA DE MISSÃO PÓS-ILUMINISTA

 

CATEQUÉTICO

EVANGELÍSTICO

Geografia

Seguia as rotas dos descobrimentos

Tinha seus próprios alvos

Objetivo

Aumentar os membros da igreja mãe

Fazer discípulos de Jesus Cristo

Método

A imposição da religião cristã, católico-romana aos colonos

O discipulado e o convite pessoal

Resultado Imediato

Cristianização das Colônias Ibéricas

Avivamentos na Inglaterra e EUA;Postos missionários no NO da Äfrica, África do Sul e China

Espírito

Expansionista Agregador

Expansionista Transformador



2. Os Movimentos de Renovação
Com a convergência dos fatores acima, alguns movimentos tomam proporção e organização e geram uma definitiva mudança de paradigma na estrutura missionária, o que nos influencia até hoje.
a.    O Grande Despertar
Uma série de avivamentos ocorridos nas colônia americanas que teve dois momentos, no  início do século de dezoito e do seu final até meados do século dezenove. Uma das figuras principais desse momento é Jonathan Edwards. Niebuhr  chama esse momento de “nossa grande conversão nacional”. O pensamento de Edwards conseguiu represar o racionalismo intelectual, romper com o engessamento puritano e dinamizar a atuação da igreja da época, projetando-a à missão e nutrindo-a com reflexão. Conforme Niebuhr , Edwards conseguiu combinar em sua pregação a necessidade da experiência espiritual pessoal e a densidade do estudo das Escrituras.
    O primeiro despertar não deu origem diretamente às atividades missionárias, mas lançou as bases para seus fundamentos.
b.    O Metodismo
Protagonizado pelos irmãos John e Charles Wesley, o movimento do século dezoito também lança bases para a reflexão missionária principalmente pelo caráter universal de salvação no pensamento de Wesley. Daí sua célebre afirmação: “O mundo é minha paróquia”. Embora tenha influenciado diretamente os índices sociais de sua  Inglaterra contemporânea, a gênese de sua pregação era a salvação de almas, de onde então derivaria a mudança social.
c.    O avivamento evangelical no Anglicanismo
     O Metodismo influenciou profundamente a ala evangelical da Igreja Anglicana que teve como ponto principal nesse cenário uma renovação na estrutura de liturgia e a inclusão da discussão da missão, na tentativa de repensar sua atitude latitudinal que os estava levando a uma “camisa-de-força” dentro de sua própria instituição. Grande parte dessa renovação na Inglaterra também se estendeu a igrejas não-estabelecidas.
d.    O Segundo Despertar
Após os movimentos supra-citados, as igrejas, principalmente Presbiterianas, Batistas e e metodistas, começaram a crescer de forma substancial na transição do século dezoito para o dezenove. Isso deu-se ao movimento chamado Segundo Despertar. Diferentemente do primeiro, ele não representou uma ruptura com algo estabelecido ou um recomeço na dinâmica de vida à partir de uma convocatória evangélica mas, antes, deu potencial ao que havia acontecido no Primeiro Despertar, tendo-o como referência, aprendendo com seus fracassos, consolidando seus ganhos e canalizando seu potencial numa grande diversidade de ministérios e, principalmente, no caráter missionário em nível interno e externo ao ponto de, em meados do século dezenove, a causa missionária alcançar o status de “grande paixão das igrejas americanas” .
e.    O protagonismo individual
De todas as contribuições desses momentos, principalmente os Grandes Despertares, talvez a maior delas tenha a ver com o surgimento das sociedades dedicadas exclusivamente às missões no exterior, as famosas “Sociedades Missionárias”. Seu quadro era formado principalmente por voluntários que, tocados pelo despertar, não estavam dispostos a esperar pela atuação burocrática das igrejas oficiais. Era natural a criação de grupos de cooperação missionária que tinham como membros pessoas comuns de várias igrejas diferentes. Elegeram William Carey, como seu paradigma de missão, o arquiteto da missão moderna, sendo que ele foi o primeiro missionário de uma missão totalmente independente (Sociedade Batista Particular para a Proclamação do Evangelho entre os Gentios). Ele foi a Serampore, na Ïndia em 1793 com uma estrutura praticamente não-institucional. Que isso não nos confunda levando-nos a pensar que tais homens estavam isolados de suas estruturas eclesiásticas. Estavam dispostos a alçar vôos próprios vendo a urgência de sua atuação, mas não estavam à parte de suas instituições.
 
3. Antecessores Históricos Imediatos
a.    A Conferência Missionária Ecumênica de Nova Iorque – 1900
Acompanhando seu tempo onde o êxtase missionário havia alcançado seus níveis mais altos, considerando o sucesso de seu desenvolvimento e de seus números, tal conferência acontece num clima de triunfalismo e ufanismo. Foi a maior conferência missionária já realizada, com a participação de 200 sociedades missionárias e mais de 200 mil pessoas em suas diversas sessões.
É importante descrever um pouco do espírito da época. O furor missionário que vem da influência dos avivamentos, principalmente nos EUA, os impulsiona às missões internas e externas. Com seu avanço rápido, mesmo debaixo de muitas críticas e desconfianças principalmente por parte dos europeus, que os condenavam de apressados e superficiais (“a geração impaciente” ), os missionários americanos internos eram milhões e milhares os internacionais. Em 50 anos, avançaram mais do que nos últimos 5 séculos, principalmente devido ao grande interesse dos jovens estudantes que, em 1886 já haviam formado o Movimento Voluntário Estudantil que em dois anos, recrutou mais de 3.000 jovens para missões. Outra característica importante é o fato do avanço missionário estar ligado ao avanço nacional. Num país de pano de fundo protestante, como os EUA, era natural que, mesmo sendo o Estado laico, a expansão missionária estivesse carregada do DNA nacionalista, fruto do espírito expansionista derivado do Iluminismo. Dizer dogmaticamente que os EUA tinham intenção colonialista é exagero tendencioso, e dizer que a motivação era puramente religiosa, é puerilidade superficial. Os impulsos religiosos e nacionais eram intrínsecos e inseparáveis.
No início do século vinte, no auge da era imperial as esse perfil missionário já tinha nomenclatura. Eram as “missões norte-americanas” que não se restringiam somente às dos EUA. Pela forte tendência pragmática e metodologia ativista, seus empreendimentos eram grandiosos e dava lugar a afirmações tais quais: “a influência de Jesus Cristo nunca foi tão ampla, profunda e transformadora” de A. Pierson ou “estamos entrando em um século mais repleto de esperança, promessas e oportunidades do que em qualquer outro período da história” William Dodge ou ainda o título da célebre obra de John Mott,  “ The Evangelization of the World in this Generation” (A Evangelização do Mundo Nesta Geração). Tudo isso combinado à crença de que os avanços científicos eram providências divinas para que a evangelização mundial fosse facilitada.
Essa conferência, apesar da vista com desconfiança pelo protestantismo europeu, inevitavelmente, influenciou o programa do Conferência Mundial de Missão, em Edimburgo.
b.    A Conferência Mundial de Missão – Edimburgo – 1910
Reunida entre os dias 14 e 23 de junho de 1910, teve papel fundamental na deflagração de um processo de debate acerca da missão no mundo. Tendo em vista a organizações de várias instituições com o mesmo intuito, as missões, viu-se a necessiade de estabelecer uma agenda de encontros que visassem o agregar, catalisar e cooperar numa direção mais unânime, além de discutir o procedimento hegemônico de atuar em missões na época, o jeito norte-americano.
Mesmo tendo um caráter um tanto quanto ingênuo na discussão missiológica por, ainda, mesclar o ideal de cristianização do mundo com interesses comerciais e expancionistas dos países europeus e dos EUA. Conforme David Bosch: “A conferência se desenrolou conforme planejada mas estruturada, em grande parte, com base nas diretrizes providas pro pressupostos norte-americanos”,  isto é misturando o sucesso do empreendimento missionário americano com os avanços científicos e a proclamação da salvação das em Cristo. No que diz respeito à missão mundial, tema principal da conferência, forças missionárias da África, Ásia e América Latina, foram convidadas não só para participarem da conferência mas também de sua construção. Todavia os representantes e delegados oficiais eram europeus ou norte-americanos que atuavam nesses continentes e não membros autóctones. Portanto enquanto protagonistas de missão, ninguém desses continentes foi convidado e, nem mesmo, enquanto objeto da missão. Daí a tendência colonialista ainda presente.
Mesmo assim é considerável o avanço no tipo de temática a se discutir, tendo como alguns dos temas o trabalho social, a ajuda médica, o comportamento em relação aos governos, formação educacional em todos os níveis e lugar e formação da mulher.
Para a América Latina, o fato de não ter nenhum representante/delegado latino americano, foi um fator importante mais pelo constrangimento patente da ausência do que por ter, ao menos, espaço para um observador, o pastor presbiteriano brasileiro Álvaro Reis. Outro fator de exclusão foi o fato de considerarem a América Latina um continente cristão, por conta da presença católica, o que a tiraria de foco enquanto alvo missionário. Um grupo de pastores norte-americanos e o Rev. Álvaro Reis se reuniu por duas ocasiões dentro de Edimburgo e escreveram uma carta de alerta às igrejas do norte, que ganhou maior proporção quando o secretário da Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos EUA ratificou, alertando aos demais que os latino americanos eram cristãos mais nominais do que efetivos. Robert Speer seria o presidente da Conferência de Missões Estrangeiras da América do Norte, em 1913 e daria o empurrão inicial à formação do Comitê de Cooperação para a América Latina (CCLA) , no qual ele mesmo seria o presidente e que teria como trabalho principal a promoção de plataformas de debate na direção da construção de uma identidade missiológica e protestante latino-americana. 

II – O CONGRESSO DE AÇÃO CRISTÃ NA AMÉRICA LATINA

1. Razão
Como dito acima, a América Latina não teve o espaço devido, ou melhor, espaço institucional nenhum nas discussões acerca dos rumos missionários para o mundo por considerarem-na um continente cristianizado por conta da atuação e hegemonia católica. Os delegados ligados à América Latina que se reuniram em Edimburgo, organizaram, junto a mais alguns líderes, uma consulta em Nova Iorque, no ano de 1913, onde discutiram a necessidade de um canal de diálogo entre os missionários que atuavam no campo latino americano, sendo sua maioria norte-americanos. Já em 1914 o CCLA reunia mais de trinta organizações missionárias norte-americanas e mantinha contato com um comitê europeu que tinha o mesmo objetivo.
A necessidade de um congresso que tivesse a América Latina como objeto de discussão se mostrava cada vez mais patente. Além do fator motivador mais importante, descrito acima, dois foram os motivos principais para tal: o fato de que muitas das missões que atuavam na América Latina não tinham relação alguma com movimento maiores, por serem frutos de iniciativas independentes, o que dificultava o diálogo ecumênico e porque as denominações históricas tinham pouco conhecimento das realidades e necessidades do continente, tanto para atuarem como para ouvirem na perspectiva da missão.


2. Construção
Diferentemente de Edimburgo, que teve em seu processo de construção, principalmente líderes eclesiástios, o Congresso do Panamá foi construído por líderes de missões com predominância norte-americana, o que também, apesar do tema tratar de outros países, um caráter transcultural. Com a ênfase demasiada no “alcançar a América Latina”, desconsiderou-se o fato de que já haviam denominações centenárias atuando em seu solo, isto é, todo o arcabouço de gestão (logística) e também de teoria (conceituação) foram norte-americanos. Em suma o congresso só aconteceu em solo latino-americano, com foto na América Latina mas com toda metodologia vertical. Os documentos preparatórios, por exemplo, foram os mesmos de Edimburgo, sem considerar-se a grande diferença dos contextos africano e oriental para a realidade latina. Tudo isso deveu-se muito ao fato de que o grande propósito do congresso foi o de motivar o envio de mais missionários para a América Latina, principalmente para a evangelização das elites culturais, uma vez que acreditavam que o conhecimento produziria libertação e, com isso, caminharam no processo inverso ao aplicado principalmente pelos autóctones que, de alguma forma, aplicavam o processo inverso, o de evangelizar as bases em vistas da capilarização, numa sociedade hegemonicamente pobre. Sobre isso, Nelson e Kessler destacam:
“As missões das denominações históricas, que em termos gerais adotaram as recomendações desse congresso, assumiram imediatamente uma imagem de classe média na América Latina. Desenvolveram, é verdade, um interesse social, porém dirigido em busca dos pobres em vez de ser um interesse que tomava os pobres como ponto de partida, como havia sido o caso quando essas missões começaram seu trabalho na América Latina”.
Segue um trecho da carta convocatória do Congresso do Panamá:
“Todas as comunhões e organizações que aceitam Jesus Cristo como divino Salvador e Senhor , e as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, como a Palavra de Deus revelada e cujo propósito é lograr que a vontade de Cristo prevaleça na América Latina, estão cordialmente convidadas a participar do Congresso do Panamá e serão bem vindas de coração”.

3. Descrição
O Congresso aconteceu entre os dias 10 e 20 de fevereiro de 1916, no hotel Tívoli, na Zona do Canal. Panamá foi o país escolhido por conta do recém inaugurado Canal do Panamá, que tinha como simbolismo o fato de que lá era uma das passagens que davam acesso a toda América Latina. O presidente do congresso foi o uruguaio Eduardo Monteverde, ligado à Associação Cristã de Moços de seu país. Entretanto os que, de fato, dirigiram o congresso foram dois conhecidos americanos, Robert Speer e John Mott.
Participaram do congresso 481 pessoas, sendo 304 delegados (159 de países de fora da AL  e 145 com atuação em algum país latino americano), 74 visitantes oficialmente convidados e mais alguns participantes panamenhos diários. A constatação interessante se dá ao fato de que, dos 145 delegados com atuação na AL, somente 21 eram nascidos no continente, o que nos leva a considerar, com segurança, que o protagonismo hegemônico no Congresso foi o dos executivos das missões estrangeiras.
Mesmo os documentos de ótimo conteúdo que tinham como tema: exploração e ocupação, mensagem e método, educação, publicações, trabalho feminino, a igreja e o campo, as bases no lugar de origem e cooperação e promoção da unidade , estavam, em sua maioria, somente em língua inglesa, com poucas traduções para o espanhol e o português. Com esse material, foi publicado um documento final em três volumes, chamado “Congresso do Panamá de 1916”, pela Movimento Missionário de Educação, compêndio que é uma excelente fonte histórica do movimento protestante na AL.
Três brasileiros participaram do Congresso do Panamá, Álvaro Reis, um de seus idealizadores, Eduardo Carlos Pereira e Erasmo Braga, que escreveu o livro “Pan-Americanismo: aspecto religioso”, entusiasmado com a cooperação evangélica.

4. Influências
a. Imediatas
A primeira grande influência deu-se à partir do fato de que não havia acontecido nenhum esforço na direção de um trabalho mais unificado, programado, unânime, na América Latina. Na verdade, nem se tinha idéia do que se estava fazendo de forma mais abrangente no campo latino americano. Traçar um quadro geral do labor protestante missionário no continente na direção da maximização da atuação, já foi um ganho significativo.
Além disso estabeleceu-se um documento com quatro metas imediatas à partir do congresso, que, de certa forma, foram frustrantes pela inaplicabilidade e falta de contextualização de ações tão complexas num momento tão inicial. São elas:
•    O esforço por evangelizar as classes cultas;
•    O desejo de unificar a educação teológica;
•    O Intento de dar uma dimensão social ao trabalho missionário na AL;
•    O esforço por promover a unidade protestante.

b.    Posteriores
Talvez o fator mais importante foi o de que o Congresso do Panamá fez parte de um processo de construção pedagógico ao qual ele deu início, mas não foi o único acontecimento. Seguiram-se, depois dele, o Congresso da Obra Cristã na América Latina – Montevidéu – 1925, o Congresso Evangélico Hispânico Americano – Havana – 1929 e a primeira, de uma série de uma série de três, Conferência Evangélica Latino Americana – Buenos Aires – 1949, tudo isso, parte de uma caminhada na direção da formação de uma identidade protestante latino-americana. Como diz Jean Bastian:
“O primeiro resultado do Congresso do Panamá foi o novo impulso que se deu ao movimento protestante”.
Isso se deu devido a permanência do CCLA como órgão, comitê, responsável pela gestão inicial dessa caminhada, o que o tornou um comitê com função maior do que a de organizar um simples congresso.
Deflagrou o florescer de uma caminhada na direção da construção de uma identidade protestante menos pulverizada e do vislumbre da possibilidade de projetos mais cooperativos, baseados numa consciência missionária, mesmo que sem lastro de conhecimento contextual. O interesse posterior mais patente, na verdade, não teve relação direta com a AL, pois foi o de despertar o interesse norte-americano pelo campo latino. Erasmo Braga diz:
“Com resultados paralelos aos que têm obtido a propaganda da Uniào Pan-Americana e outras instituições para despertar nos EUA mais interesse pela AL, a propaganda e os trabalhos de organização do Congresso do Panamá despertam enorme interesse em vasta zona da opinião norte-americana. A imprensa, as escolas e as igrejas estão preocupadas com estudar os latino-americanos e suas terras. ”
“O objetivo prático do congresso foi despertar o interesse e levantar contribuição pessoal e financeira para a obra na AL.”
E foi o que aconteceu. A importância do trabalho cooperativo e das novas forças levantadas à partir da inquietação norte-americana baseadas nas novas publicações sobre a AL e a cursos específicos nas escolas de missões fez com que conhecessem melhor a realidade latina, o que fez com que o CCLA tomasse um caráter permanente.
    Como fator local positivo, o Congresso revitalizou a esperança dos protestantes residentes na AL, deu aos autóctones o sentimento de que são importantes para o cenário mundial, compreendidos e de que não estão sozinhos, dando aos protestantes líderes nacionais a confiança em si mesmos para continuarem no labor missionário.
    Apesar dos missionários nacionais já estarem na AL, de denominações históricas já atuarem no contexto latino-americano e de já haver lampejos de uma identidade protestante (no caso do Brasil, por exemplo, Antônio Gouvêa de Mendonça considera 1859 como o ano que dá o início da construção de uma identidade protestante ), considera-se o Congresso do Panamá como o primeiro passo de um ciclo de discussão  missiológica latino-americana.

•    Montevidéu – 1925 – Congresso da Obra Cristã na América do Sul
Aconteceu entre os dias 29 de março e 08 de abril, em Montevidéu. Uruguai foi o país escolhido porque, dentre os outros da América do Sul, era dos que tinha um grupo considerável de protestantes, que erigiram sua primeira igreja em 1840.
Esse congresso acontece como desdobramento da iniciativa do CCLA, de estabelecer uma caminhada na direção da construção de uma identidade protestante na América Latina. Por isso, 09 anos depois do Panamá, precisavam reavaliar no que tinham logrado êxito desde o congresso de 1916 e como gestariam esse encontro já seria um ponto fundamental de avaliação dessa caminhada.
O presidente do Congresso foi o brasileiro Erasmo Braga, mas a direção executiva ainda foi norte americana, com os missionários Robert Speer e Samuel Inman. Todavia, no que diz respeito à participação, houve alguma evolução em relação ao congresso de 1916. Foi composto por 165 delegados, sendo 45 latino-americanos natos, o que representava 27% da participação que, no Panamá, foi de 7%. Mesmo com pouca participação, os latinos fizeram, bem a seu estilo, muito barulho, principalmente por terem colocado em pauta a tensão latente que existia na relação entre as igrejas nacionais, quase sem liberdade de atuação e administração, e as “igrejas-mães”que, por enviarem os recursos, ditavam toda a cartilha de operação das filhas.
Dois dos pontos mais importantes de Montevidéu foram, em primeiro lugar, a ênfase que se deu à educação, sendo que, na semana anterior ao congresso, aconteceu a Conferência Educacional, que lançou as bases para o projeto da Comissão Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (Celadec), organizada em 1961. O outro ponto foi a participação de um jovem missionário escocês que trabalhava no Peru, John Mackay que, com sua jornada, influenciaria não só o protestantismo latino-americano, como o movimento missionário internacional.
O Congresso de Montevidéu deu maior legitimidade no processo de construção da identidade protestante latino americana por aumentar a participação dos latinos e por dar espaço a uma primeira discussão em relação ao relacionamento das igrejas nacionais com as igrejas-mãe. Foi bem sucedido enquanto ponte entre o Panamá, 1916 e Havana, 1929.
•    Havana – 1929 – Congresso Evangélico Hispano-Americano de Havana
Aconteceu entre os dias 20 e 30 de junho, em Havana. Cuba acabou sendo a sede de um congresso que, originalmente, seria no México mas não ocorreu lá por conta do momento cristão desfavorável.
Esse congresso representa um momento muito importante na caminhada de construção de uma identidade protestante, principalmente porque encerra um processo que iniciou-se no Panamá, 1916 e abre as discussões para a realização de uma nova sequência de encontros chamados CELA’s (Conferências Evangélicas Latino Americanas).
Nesse congresso o protagonismo, enfim, foi latino americano e, dos 200 participantes, 118 eram latinos natos. No início do congresso, uma comissão de 25 pessoas foi eleita para dirigir os trabalhos, sendo que todos eram latino americanos e dentre eles havia uma mulher. O presidente do congresso foi o metodista mexicano Gonzalo Báez Camargo, então com somente 30 anos.
O congresso trabalhou seu conteúdo dividido em quatro áreas: solidariedade evangélica, educação, ação social e literatura. Entretanto a discussão, em princípio latente por não estar presente em nenhuma comissão, voltou à baila como o grande tema “de corredor” que tomou circunstância: o relacionamento entre as igrejas-mãe e as igrejas-filhas (nacionais) que, de forma menor, traduzia a dificuldade de relacionamento entre os pastores locais, ávidos por implantar seus projetos e os missionários internacionais que, como eram os subsidiadores das igrejas locais, com dinheiro de fora, achavam os pastores nacionais imaturos, despreparados para assumir o protagonismo das igrejas e com espírito revoltado e revolucionário. Apesar desse desentendimento, ficou evidente que a independência de governo e financeira, era fundamental para o amadurecimento e crescimento das igrejas locais, sem comprometer-se o espírito de gratidão e unidade da igreja universal.
De todos os desdobramentos, o mais significativo, apesar de utópico, foi levar em consideração a proposta do preletor cubano Luis Alonso de formar-se uma Federação Internacional Evangélica, composta por comitês evangélicos nacionais, o que sinalizava, de fato, o princípio da institucionalização de uma unidade mais macro. Tal proposta, aprovada por unanimidade e levado à cabo por uma comissão especial, só tomou forma à partir da primeira Conferência Evangélica Latino Americana.   


Conclusão
A influência no modus operandi  missionário da qual a América Latina foi alvo, vem de muito tempo na história, desde o Paradigma Iluminista. Os avivamentos, o furor pela urgência missionária, principalmente norte-americana, fizeram com que se tentasse organizar melhor a gestão dos projetos de missões, visando a maximização de sua atuação. Com isso foram convocados encontros tanto para essa discussão, quanto para a melhor reflexão dessa prática. A América Latina acabou esquecida, não só como protagonista mas  também como alvo. Com a inquietação de um grupo, por conta desse esquecimento, iniciou-se um movimento na direção da AL, principalmente como campo missionário. Isso foi o embrião para o início da discussão de uma missiologia latino-americana e de uma identidade protestante para o continente.
O Congresso do Panamá é um ponto fundamental nessa caminhada, pois coloca a América Latina no centro da discussão missionária internacional e deflagra o processo de construção de uma missiologia latino-americana.



BIBLIOGRAFIA
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