A HISTÓRIA DA LEITURA RELIGIOSA COMO CAMINHO PARA A COMPREENSÃO DO TEOLÓGICO NO CONTEXTO BRASILEIRO

Dr. João Leonel

Pós-Graduação Letras

Universidade Presbiteriana Mackenze.

AA HISTÓRIA DA LEITURA RELIGIOSA COMO CAMINHO PARA A COMPREENSÃO DO TEOLÓGICO NO CONTEXTO BRASILEIRO

Dr. João Leonel Pós-Graduação Letras Universidade Presbiteriana Mackenze.

INTRODUÇÃO

Talvez pareça estranho no contexto da reflexão teológica a introdução de conceitos históricos e literários. Mas julgo que a utilização da História da Leitura, campo interdisciplinar que congrega historiadores, sociológicos e teóricos da literatura, como elemento reflexivo colabora para a observação e análise do campo religioso e teológico brasileiro.

Nesse contexto, proponho nesta comunicação que seja dada atenção para a História da Leitura religiosa brasileira, particularmente a protestante, como indicadora dos caminhos pelos quais a religiosidade protestante tem caminhado. Parece-me claro, nesse sentido, que proponho uma inversão ao que se faz em termos teológicos, sejam eles dogmáticos ou exegéticos. Em lugar de partir de textos fundantes, teologias sistemáticas e a Bíblia, tomo como ponto de partida a observação do que se lê para que esses dados sejam utilizados na identificação do espectro protestante, tanto passado como atual.


1 BÍBLIA, LIVROS RELIGIOSOS E LEITURA NO BRASIL

Gostaria de destacar os índices de leitura da Bíblia no Brasil. A pesquisa Retratos da leitura no Brasil, em sua segunda edição (2008) aponta:

População estudada: 172.731.959 pessoas (a partir de 5 anos de idade). Leitor: quem declarou ter lido pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses. Leitores de livros no Brasil: Homens – 45%. Mulheres – 55%.

Leitores por classe social

Classe A – 3%; Classe B – 16%;2

Classe C – 43%; Classe D – 35%; Classe E – 3%.

Gêneros mais lidos pelos leitores (principais):

Bíblia 45%

Livros didáticos 34% Romance 32% Literatura infantil 31% Poesia 28%

História em quadrinhos 27%

Livros religiosos 27%

História, política e ciências sociais 23% Contos 20% Enciclopédias e dicionários 17% Literatura Juvenil 15%

Biografias 14% Auto-ajuda 13%

Homens Mulheres

Leitores da Bíblia: Homens - 40%. Mulheres - 49%. Leitores de livros religiosos: Homens – 23%. Mulheres – 30%. Leitores por escolaridade:

Até 4a Série Bíblia49%

Livro religiosos25% Leitores por faixa etária

5a a 8a Série

44% 23%

E. Médio

48% 34%

E. Superior

35% 26%

5 a 10

11 a 13

14 a 17

18 a 24

25 a 29

30 a 39

40 a 49

50 a 59

60 a 69

70 e +

Bíblia

38%

33%

36%

36%

49%

55%

55%

58%

66%

75%


Livros Religiosos

13%

15%

18%

22%

31%

39%

33%

45%

51%

48%


Livros mais importantes na vida dos leitores

1) Bíblia

2) O Sítio do Pica-pau Amarelo 3) Chapeuzinho Vermelho

4) Harry Potter 5) Pequeno Príncipe 6) Os Três Porquinhos 7) Dom Casmurro 8) A Branca de Neve 9) Violetas na Janela 10) O Alquimista 11) Cinderela 12) Código Da Vinci 13) Iracema 14) Capitães de Areia 15) Ninguém é de Ninguém 16) O Menino Maluquinho 17) A Escrava Isaura 18) Romeu e Julieta 19) Poliana 20) Gabriela Cravo e Canela.

Obs: O número de citações da Bíblia é 10 vezes maior que a do 2o colocado.


Último livro que o leitor leu ou está lendo

1) Bíblia

2) Código Da Vinci 3) O Segredo 4) Harry Potter 5) Cinderela

6) Chapeuzinho Vermelho 7) Violetas na Janela 8) A Branca de Neve 9) Os Três Porquinhos

10) O Sítio do Pica-pau Amarelo 11) O Caçador de Pipas 12) Dom Casmurro 13) O Monge e o Executivo

14) A Moreninha 15) Senhora 16) A Bela e a Fera 17) Romeu e Julieta 18) Iracema

19) Peter Pan 20) Bom Dia Espírito Santo

Obs: 6,9 milhões estavam lendo a Bíblia (18 vezes mais citada do que o 2o colocado).

 

Formas como os leitores costumam ler livros

Apenas trechos ou capítulos – 55%. Dos 43 milhões que preferem ler trechos dos livros, 10% são leitores da Bíblia.

A posse do livro no Brasil

146,4 milhões de brasileiros (85% da população estudada) afirmam possuir pelo menos 1 livro em casa.

A média é de 25 livros por residência.

Que livros são esses?

Livros indicados pela escola (inclusive didáticos) – 12,6 livros.

Bíblias – 2,0 livros. Outros livros religiosos – 3,0 livros. Outros livros – 7,4 livros.


2 UM POUCO DE TEORIA

Após as indicações e números que nos localizam em perspectiva quantitativa a respeito da leitura da Bíblia e de livros religiosos no Brasil, é necessário refletir a sobre a leitura em si.

Para tanto, utilizo algumas citações como referência:


Paulo Freire

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente” (FREIRE, 2003, p. 11).

“[...] a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele” (p. 20, grifo nosso).

Relação leitor/mundo, seu mundo. Os sentidos do mundo serão levados para dar sentido à leitura da palavra. O(s) mundo(s) religioso(s), nesse caso.


Paul Ricoeur

Encontro entre o “mundo do texto” e “mundo do leitor”.

“[...] o que deve ser interpretado, num texto, é uma proposição de mundo, de um mundo tal como posso habitá-lo para nele projetar um de meus possíveis mais próximos (1990, p. 56, grifo do autor).

A descrição e a interação entre obra e leitor é estabelecida pelo filósofo em torno do ato de leitura. Portanto, será a leitura que permitirá o surgimento desse mundo diante do leitor. Mas não apenas isso, “[...] é para além da leitura, na ação efetiva, instruída pelas obras consagradas, que a configuração do texto se transforma em refiguração” (1997, v. 3, p. 275- 276, grifo do autor). Por conseguinte, é necessário que o mundo fictício do texto e o mundo do leitor real se confrontem para que a refiguração seja efetivada.

Ricouer proporá uma “fenomenologia da leitura”, que, “[...] para dar toda sua amplitude ao tema da interação [entre obra e leitor], precisa de um leitor de carne e osso, que, ao efetuar o papel do leitor pré-estruturado no e pelo texto, transforma-o” (1997, v. 3, p. 292, grifo do autor). Um leitor ativo, portanto. Ele se constituirá a partir de expectativas que compõem seu horizonte.

[...] quando o leitor, descobrindo seu lugar prescrito pelo texto, sente-se não mais seduzido, mas aterrorizado, só lhe resta o recurso de se pôr à distância do texto e de ter a consciência mais viva do desvio entre as expectativas que o texto desenvolve e suas próprias expectativas, como indivíduo fadado à cotidianidade e como membro do público culto, formado por toda uma tradição de leituras (1997, v. 3, p. 302, grifo do autor)


Michel de Certeau

“[...] a própria lógica produtivista, isolando os produtores, levou-os a supor que não exista criatividade nos consumidores; uma cegueira recíproca, gerada por este sistema, acabou por fazer que tanto uns como os outros acreditassem que a iniciativa habita apenas nos laboratórios técnicos. [...] postula ainda um público passivo, ‘informado’, tratado, marcado e sem papel histórico” (2009, p. 238).

“A leitura é apenas um aspecto parcial do consumo, mas fundamental. [...] pode-se muitas vezes substituir o binômio produção-consumo por seu equivalente e revelador geral, o binômio escritura-leitura” (2009, p. 239).

“O funcionamento social e técnico da cultura contemporânea hierarquiza essas duas atividades (escrever e ler). Escrever é produzir o texto; ler é recebê-lo de outrem sem marcar aí o seu lugar, sem refazê-lo” (2009, p. 240, grifo nosso).

“O que se deve pôr em causa não é, infelizmente, essa divisão do trabalho (é muito real), mas o fato de assimilar a leitura a uma passividade. Com efeito, ler é peregrinar por um sistema imposto (o do texto, análogo à ordem construída de uma cidade ou de um super- mercado). Análises recentes mostram que ‘toda leitura modifica o seu objeto’, que (já dizia Borges) ‘uma literatura difere de outra menos pelo texto que pela maneira como é lida’, e que enfim um sistema de signos verbais ou icônicos é uma reserva de formas que esperam do leitor o seu sentido. Se, portanto, ‘o livro é um efeito (uma construção) do leitor’, deve-se considerar a operação deste último como uma espécie de lectio (escolha), produção do ‘leitor’” (2009, p. 240-241, grifo nosso).

“Este [leitor] não toma nem o lugar do autor nem um lugar de autor. Inventa nos textos outra coisa que não aquilo que era a ‘intenção’ deles. Destaca-os de sua origem (perdida ou acessória). Combina os seus fragmentos e cria algo não sabido no espaço organizado por sua capacidade de permitir uma pluralidade indefinida de significações” (2009, p. 241).

“A criatividade do leitor vai crescendo à medida que vai decrescendo a instituição que a controlava. Este processo, visível desde a Reforma, começa a inquietar os pastores já no século XVII. Hoje há os dispositivos sociopolíticos da escola, da imprensa ou da TV que isolam de seus leitores o texto que fica de posse do mestre ou do produtor” (2009, p. 243- 244).

“O leitor é o produtor de jardins que miniaturizam e congregam um mundo. [...] Ele se desterritorializa, oscilando em um não lugar entre o que inventa e o que modifica. Ora efetivamente, como o caçador na floresta, ele tem o escrito à vista, descobre uma pista, ri, faz ‘golpes’, ou então, como jogador, deixa-se prender aí. Ora perde aí as seguranças fictícias da realidade: suas fugas o exilam das certezas que colocam o eu no tabuleiro social” (2009, p. 245).

“[...] os leitores são viajantes; circulam nas terras alheias, nômades caçando por conta própria através dos campos que não escreveram, arrebatando os bens do Egito para usufruí- los” (2009, p. 245).

 

Roger Chartier

Chartier reconhece leituras plurais, chamadas por ele de “práticas de leituras”, ligadas a comunidades de leitores situadas historicamente. Como exemplo, cita no livro A história cultural a leitura puritana do século XVII. Segundo o historiador: “Cada uma destas ‘maneiras de ler’ comporta os seus gestos específicos, os seus próprios usos do livro, o seu texto de referência [...], cuja leitura se torna o arquétipo de todas as outras” (1990, p. 131).

Portanto, para Chartier a leitura é uma “prática cultural” ligada a grupos que articulam protocolos de leitura próprios. Por isso mesmo ele propõe o estudo das “práticas de leitura” historicamente construídas.

Aplicando sua teorização ao campo religioso, poderíamos pensar e pesquisar os diversos grupos religiosos brasileiros como constituidores de formas específicas de leituras. Isso poderia se dar dentro de uma tensão:

Instituições religiosas: proposição de fechamento de sentidos via confissões, tratados hermenêuticos, comentários à Bíblia, teologias dogmáticas etc.

XLeitores religiosos: fugas de sentido e novas criações de sentido a partir de seus

mundos.


3 PROPOSTAS DE PESQUISA

O que os primeiros protestantes brasileiros liam? Como tais leituras os influenciaram? Catalogar e estudar os impressos do período. Estudo de bibliotecas de pastores e leigos;

Qual a influência dos primeiros jornais protestantes sobre os leitores? Que tipo de leitores os jornais configuram?

Estudo de sermões do século XIX;

Estudo da correspondência entre os primeiros missionários e suas agências no exterior;

Editoras protestantes. Quais as publicações mais importantes? Que tipo de leitores elas pressupõem? Há espaço para a ficção nessas editoras?;

Edições especiais de Bíblia. Bíblia pentecostal, Bíblia da mulher, Bíblia da criança etc. Como essas bíblias configuram ou identificam determinado leitor?;

O papel dos paratextos em edições bíblicas;Marginália. Anotações em bíblias;Etc, etc. etc.


4 PESQUISA EM DESENVOLVIMENTO

Atualmente desenvolve o projeto: “Sistema literário protestante brasileiro: imprensa, editoras e a formação do leitor”, aprovado e desenvolvido com apoio financeiro do CNPq, no contexto da pós-graduação em Letras – Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Para conhecimento geral, apresento o resumo: “Este projeto se propõe a pesquisar a imprensa e as editoras protestantes brasileiras com o objetivo de identificar o surgimento de um sistema literário religioso e, dentro desse sistema, investigar as estratégias de formação de leitores religiosos. Para tanto, delimita três corpus, situados historicamente: no século XIX - o primeiro jornal protestante da América Latina, a Imprensa Evangelica1, impresso de 1864 a 1892, que dá início ao sistema literário protestante brasileiro; e nos séculos XX e XXI – a literatura religiosa para crianças como subcategoria da literatura religiosa; e bíblias de estudo, uma subcategoria de Bíblia que se caracteriza pela presença de elementos paratextuais como introduções aos livros canônicos e notas marginais de cunho literário, cultural, temático e doutrinário”.

A principal questão, que contém e dá sentido às especificações necessárias ao detalhamento do corpus do pesquisa, parte da concretude e presença dos impressos protestantes na sociedade brasileira, analisando aspectos de seu crescimento e de sua capacidade de formar leitores. Ou, em outras palavras, se pergunta como a literatura evangélica se expande e, a partir daí, consegue criar, nos dizeres de Roger Chartier, uma comunidade de leitores? (1994, p. 11-31). Parte-se, dessa forma, da hipótese de que desde meados do século XIX começa-se a estabelecer um sistema literário2 protestante no Brasil.

1 Originalmente o termo era grafado sem assento. 2 Usa-se, aqui, a já tradicional noção de “sistema literário” conforme concebida por Antonio Candido nas obras: Iniciação à literatura brasileira. 3. ed. São Paulo: Humanitas, 1999; Formação da literatura brasileira. São Paulo: Ouro sobre azul, 2007; e Literatura e sociedade. 11. ed. Rio de Janeiro: Editora Ouro sobre Azul, 2010.

São três os objetivos do projeto:

- Análise da inserção do jornal Imprensa Evangelica no quadro da imprensa nacional no século XIX. Estudo das formas de incorporação de matérias e de conteúdos, assim como de suas estratégias para a formação dos primeiros leitores protestantes em solo brasileiro.

- Identificação e especificação de livros religiosos para crianças como subsetor da categoria “livros religiosos” no contexto do mercado editorial evangélico.

- Análise de bíblias de estudo produzidas por editoras evangélicas. O objetivo é demonstrar como paratextos editoriais colocam-se como complemento e, às vezes, como geradores de sentidos opostos àqueles dos textos bíblicos. Desse modo, as bíblias de estudo servem como mecanismos de orientação e formação de leitores segundo as ideologias das editoras que as publicam.


CONCLUSÃO

Esta comunicação partiu da constatação das leituras religiosas no contexto brasileiro. Observou-se a diversidade e pluralidade de práticas leitoras, contendo, em tese, criações de sentidos variados. É comum que lideranças religiosas busquem padronizar a compreensão da Bíblia e da cosmovisão dos membros de suas comunidades a partir de práticas hermenêuticas, o que pode ser observado pelo estudo de textos oficiais e hermenêuticos. Por por outro, é possível identificar as práticas leitoras a partir daquilo que os membros das comunidades religiosas leem. Esse foi a proposta da comunicação, visto que, com isso, pode-se obter dados mais concretos sobre o que é lido, como é lido, e as consequências das leituras, elementos importantes para a compreensão do mundo evangélico brasileiro.

Referências bibliográficas

AMORIM, Galeno (Org.). Retratos da leitura no Brasil. São Paulo: Instituto Pró-Livro; Imprensa Oficial, 2008.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Ouro sobre azul, 2007. ______. Iniciação à literatura brasileira. 3. ed. São Paulo: Humanitas, 1999. ______. Literatura e sociedade. 11. ed. Rio de Janeiro: Editora Ouro sobre Azul, 2010.

9

CERTEAU, Michel de. Capítulo XII. Ler: uma operação de caça. In: ______. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. p. 236-248.

CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand; DIFEL: Lisboa, 1990.

______. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Tradução de Mary Del Priori. Brasília: Editora UnB, 1994.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 44. ed. São Paulo: Cortez, 2003.

RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias. 4a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, v, 1, 1994, tradução de Constança Marcondes César; v. 2, 1994, tradução de Marina Appenzeller; v. 3, 1997, tradução de Roberto Leal Ferreira. 3 v.

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