A Desordem das coisas: O Reino na História do Tempo Presente.

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Por Lyndon de A. Santos – Presidente da FTL-B

            Escrevi esta reflexão no calor do momento das manifestações populares em todo o Brasil, que se impõem sobre nós de forma avassaladora. E qualquer interpretação deste presente certamente já faz parte dele e se faz inacabado e parcial.

Lembro o teólogo que interpretou a expressão de Jesus, “não vim para trazer paz, mas espada”, como uma referência oposta e crítica à “pax romana”, imposta na base da violência sobre os povos dominados por Roma. O Messias não veio trazer aquela paz ou aquela ordem, aqueles pactos feitos entre as elites dominantes de Roma com as elites locais dos povos dominados. Daí a contundência de sua palavra em destruir o templo de Jerusalém em três dias, expulsando os vendilhões e ameaçando uma instituição que representava a ordem, a pax de uma Judeia aliançada com Roma via Herodes e saduceus. O templo era o banco central da época, pois toda a arrecadação tributária por ali passava e era o centro político e religioso da região.

 

Tudo não está no seu lugar.

Nos tempos agonizantes do fim da ditadura militar (1964-1985), um cantor popular fez sucesso com uma letra que dizia: “tudo está no seu lugar, graças a Deus”. Os acontecimentos posteriores das décadas de 1980/90 mostraram que este refrão estava equivocado, era ingênuo, serviu aos interesses do outrora regime de exceção e ainda colocou Deus como seu conivente. E alguns dos seus representantes na terra, os evangélicos brasileiros, em sua maioria, concordavam com aquela ordem das coisas.

Sendo assim, tudo não estava no seu lugar, graças a Deus! Pois algumas daquelas forças foram sendo removidas, embora não todas, e o país ficou mais democrático. Mas ainda existem realidades que não deveriam estar onde estão, enquanto outras ainda não foram colocadas ou inventadas. Isto significa que nenhuma ordem por si mesma é acabada, intocável, santa, justa e divinamente inspirada, muito menos qualquer teocracia criada pelos artifícios humanos.

O que estamos vendo em tempo real das manifestações populares dos últimos dias comprova que a ordem presente precisa ser transformada. E isto tem a ver com o Evangelho do Reino.

A desordem da Ordem

Confesso que estava faltando na nossa história recente, na nossa geração, uma reação popular que atingisse a ordem. Ainda é cedo para afirmar que isto acontecerá de forma a mudar radicalmente o atual cenário social e político do nosso país. Estruturas não mudam de forma rápida, a não ser por um processo revolucionário de aguda força, violência e destituição do lugar dos agentes políticos e econômicos, com suas ideias, práticas e visões de mundo. O cotidiano do brasileiro está marcado pela desordem causada pela má administração da coisa pública, desde as políticas sociais, os recursos, o transporte, a saúde, a educação. Enfim, há uma grande desordem nesta presente ordem das coisas.

Pelas vias mais pacíficas e que agem dentro das regras colocadas, as mudanças são lentas e tendem a ser engolidas pelas forças reacionárias que controlam os meios que mantém os privilégios de grupos, corporações, indivíduos e instituições. Grandes interesses de pequenos grupos privados.

Por sua vez, a ordem não se restringe ao Brasil, mas está relacionada à situação internacional gerada pelo mimetismo do grande capital na era da globalização. Ela tem a ver tanto com a primavera árabe como com os manifestos da Praça Taskim, em Stambul na Turquia.  Ela tem relação com a atual reunião do G8 na Irlanda, com caos econômico da Grécia na comunidade europeia, com os 25% de desemprego na Espanha e com o esgotamento dos recursos da terra em nome do desenvolvimento sustentável.

O discurso da imprensa – golpista e não golpista – aponta para as propostas difusas do movimento devido à ausência de lideranças ou de um comitê que o representa. Também acentua o apartidarismo do movimento – mas não menos político, o excesso do vandalismo praticado por grupos menores e radicais, o desgaste dos governos (federal, estadual e municipal), a truculência da polícia militar herdeira do modelo repressor da ditadura, ante a leveza do movimento majoritariamente pacífico. Parte da própria imprensa como a Rede Globo e a revista Veja é hostilizada como veículos reconhecidamente mantenedores do establishment.

Mas podemos pensar na ordem inversa.

A ordem da Desordem

O movimento se apresenta sem liderança específica e identificada, ocupa as ruas de forma organizada e desordeira, ao mesmo tempo pacífica e violenta. Afinal, como controlar 250 mil pessoas ao mesmo tempo nas ruas? Como conduzir uma multidão que concentra sentimentos de revolta causados pelo desrespeito dos governantes? Entretanto, há uma ordem nesta aparente desordem e ela não se identifica com as formas tradicionais de mobilização popular, capitaneadas pelos movimentos sociais já estabelecidos como os partidos políticos.

O estopim do atual movimento foi a reivindicação contra o aumento das passagens de ônibus. No entanto, não se limita a esta questão, mas amplia-se para outras pautas de reclamação e de reivindicação por parte das pessoas que se deparam com falta de transportes públicos decentes, moradia digna, saúde com respeito e educação com qualidade. Une-se a estes fatores a indignação ante os gastos da copa do mundo, nitidamente fraudulentos e exacerbados.

O que estamos presenciando é a juventude assumindo seu protagonismo e tomando para si um destino que não se define pelo mundo pronto da tecnologia informatizada. Eis a diferença entre a praça e o shopping, entre o desejo de ver outro mundo e a cooptação ao que está posto e pronto.

Enfim, a presente ordem colocada esgotou-se nas justificativas de se manter, cujos discursos vindos da classe política perderam a credibilidade. O que estamos vendo é a insurgência de forças e energias sociais guardadas e comprimidas por um cotidiano repleto de tensões e violências do brasileiro.

Uma história não Passiva

Pois nem passivo e nem dormindo o sono da ignorância, o brasileiro demonstra de forma difusa sua indignação ante os desmandos das classes políticas e empresariais, da falta de respeito com o dinheiro público, a corrupção e a falência da ética no trato com a coisa pública. Não pensemos que isto está acontecendo somente neste momento de convergência e de mobilização popular sob a cobertura da mídia e da catalisação por meio das redes sociais. O dia a dia do brasileiro está repleto de indignações exteriorizadas, verbalizadas ou não.

A pauta ou o foco principal do movimento são os 0,20 centavos de aumento da passagem de ônibus em São Paulo. Mas ela atingiu a própria condição da vida nas cidades, a legitimidade dos governos, a natureza e o papel do estado. A pauta, portanto, é tanto imediata como de longo e de médio prazo, mas não menos urgentes. Na esplanada em Brasília os participantes falavam na segunda-feira, 17: “a nossa luta é nacional, a nossa luta é mundial”.

povo brasileiro historicamente nunca foi passivo ou anônimo. Para quem se remete à nossa história desde a colônia, as camadas populares e setores da população oprimidos sempre reagiram pontualmente ou em revoltas ante a toda opressão recebida por parte das elites dominantes. Os quilombos ainda estão vivos para testemunharem um passado injusto imposto sobre os negros africanos escravizados. As revoltas indígenas, as regenciais, da vacina, do vintém, dos Malês, da Balaiada, enfim, uma série de intervenções populares que alteraram a ordem vigente e mesmo a negaram em nome da justiça.

Una pregunta!

E a pergunta para os evangélicos e para a FTL-B poderia ser: a nossa vocação serve para sustentar e legitimar a ordem das coisas ou para desconstruí-la segundo o Evangelho do Reino? De que importa classificarmo-nos uns aos outros de liberaisevangelicaisconservadores ou fundamentalistas, quando o Reino está se mostrando à nossa frente na história do tempo presente?

Estas categorias ou estes estereótipos são operacionais neste momento? Que valor tem para esta realidade à nossa frente discutir se determinado grupo tem a premissa de possuir o discurso e práxis da missão integral e se a teologia dessa missão integral ainda é válida? Por sua vez, não cabem mais projetos personalistas que se pretendem messiânicos e autoritários, que negam o processo coletivo de construção das realidades do Reino de Deus. Não cabem projetos auto referentes que se colocam como paradigmas avaliadores dos outros numa forma disfarçada de etnocentrismo teológico.

Gosto de pensar que o tempo presente está recebendo uma lufada de vento soprando à margem das estruturas religiosas estabelecidas, das igrejas e das suas instituições. Enquanto a juventude está nas ruas, a comissão dos Direitos Humanos dirigida por um deputado e pastor evangélico aprova projeto para a “cura gay”. A pauta dos evangélicos ou destes evangélicos se distancia do sopro e se volta para os projetos pessoais e políticos de ocasião.

O Reino está aí nos vértices dos tempos, nas dobraduras dos acontecimentos. Ou na desordem das coisas.